O Ministério Apostólico e as Escrituras

O cessacionismo dispensacionalista afirma que o dom apostólico cessou com a morte da geração da Igreja Primitiva. No entendimento dos irmãos que defendem esta crença, um dos requisitos do dom apostólico era redigir as Escrituras do cânon. Os apóstolos supostamente eram um grupo seleto com autoridade exclusiva para escrever e/ou supervisionar a redação dos livros da Bíblia.

A conclusão, portanto, é a de que, uma vez que o cânon já está fechado e a Palavra de Deus está completa, não há e jamais haverá apóstolos que sucedam os apóstolos bíblicos, pois nenhum homem tem o poder de adicionar livros às Sagradas Escrituras.

A verdade, porém, é que este silogismo está comprometido, pois parte de uma premissa totalmente carente de sustentação bíblica. A idéia de que a operação do dom apostólico está relacionada de forma restrita à redação de Escrituras é uma filosofia que se fossilizou ao longo dos anos, mas não é algo que a Bíblia nos ensina, como veremos.

Ironicamente, o primeiro Apóstolo, Jesus (Hb 3.1), não escreveu absolutamente nada além de algumas palavras na areia (Jo 8:6). Dos 12 apóstolos originais, somente uma minoria produziu escritos canônicos (Pedro, João, Mateus). Dos demais apóstolos, somente Judas e Tiago (meio-irmãos do Senhor Jesus) e Paulo escreveram Escrituras. A maioria absoluta dos apóstolos não se preocupou em escrever ou incluir novos escritos no cânon, pois para eles as Escrituras já existiam (o Antigo Testamento) e toda sua revelação apontava para elas.

É mais do que óbvio, portanto, que “escrever ou supervisionar a redação das Escrituras” não é a marca principal do apostolado. O principal papel do ministério apostólico/profético não é expandir o cânon, mas manifestar, no tempo e no espaço, a revelação para a qual o cânon aponta.

A própria Bíblia nos demonstra claramente que, a exemplo de Barnabé, apóstolos e profetas não têm que necessariamente criar novas Escrituras. A principal característica destes ministérios é trazer revelação (literalmente “tiram o véu”) das Escrituras já existentes, pela natureza e operação de seu dom. São catalisadores do Espírito Santo para levar a Igreja da Letra para a Realidade pela Palavra Viva – a manisfestação ao vivo e em cores daquilo que antes estava restrito à letra. Apóstolos e profetas sempre apontam para as Escrituras já existentes, pois elas é que testificam de sua mensagem e de seus frutos. Assim foi com o primeiro Apóstolo, Jesus, assim foi com os demais e assim será com os vindouros.

Um outro equívoco, amplamente difundido entre os cessacionistas dispensacionalistas, é o de que as Escrituras hoje cumprem o papel do ministério apostólico. Em outras palavras, cada vez que a Palavra de Deus no Novo Testamento é lida e proclamada, o ministério apostólico cumpre o seu papel.

Em primeiro lugar, é bom nos recordarmos de que 1 Co 12:28 relaciona o dom apostólico juntamente com os demais dons espirituais. Portanto, é lógico pensar que, assim como os demais dons não cessaram e estão disponíveis à Igreja, do mesmo modo o dom apostólico.

De acordo com Efésios 4.11-13, o plano de Deus é que a Igreja seja suprida com apóstolos e profetas assim como é com pastores, evangelistas e mestres “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo”. Se ainda não chegamos ao pleno conhecimento do Filho de Deus e à perfeita varonilidade, apóstolos e profetas são tão necessários quanto pastores, mestres e evangelistas.

Paulo uma vez mais lista apóstolos e profetas de maneira indistinta dos demais ministérios. Se o ministério apostólico estivesse restrito a um número limitado de pessoas, Paulo não os teria relacionado com os demais quando escreveu aos Coríntios e aos Efésios. Não há absolutamente nenhuma passagem bíblica que afirme que alguns dons continuariam sendo dados ao Corpo de Cristo e outros cessariam ou seriam substituídos pelas Escrituras.

Como frutos de uma sociedade ocidental, e consequentemente do escolasticismo grego, realmente pensamos que o ministério apostólico se resumia na proclamação e no ensino das Escrituras. Reduzimos o apostolado à mera exposição exegética de um conjunto de doutrinas bíblicas. Como filhotes de Aristóteles, de Sócrates e de Platão, pensamos que realmente podemos entender e manifestar o mistério entre Cristo e a Igreja somente usando o lóbulo frontal do cérebro. Mas o Fundamento apostólico não se limita à mera exposição exegética das Escrituras.

Apóstolos são pessoas que possuem revelação do DNA da Igreja e entendem seu funcionamento. Em outras palavras, o ministério apostólico vai muito além de pregar a “doutrina correta”, mas se estende a capacitar os membros da Ekklesia a operarem em uma dimensão real de sacerdócio universal (algo que a Igreja Protestante somente recita, mas pouco implementa na prática). Quando um apóstolo lançava o Fundamento, como sábio arquiteto (1 Co 3:10), não apresentava um conjunto de doutrinas, mas provocava a manifestação de uma Pessoa no Corpo de Cristo. Os dons apostólico e profético na Igreja funcionam como catalisadores do Espírito que organizam os elementos da Casa de Deus (a Palavra e os dons espirituais) de forma que seus membros operem organicamente, literalmente como o Corpo. Apóstolos e profetas não se limitam a somente estabelecer conceitos corretos, mas também o modus operandi (MO) correto da Igreja, de acordo com os moldes lançados pelos primeiros apóstolos. Isso é lançar o Fundamento apostólico/profético.

O alicerce (fundamento) de uma casa determina sua forma. O MO ou a forma da Igreja atual não reflete o fundamento dos primeiros apóstolos e profetas. Seu fundamento não é apostólico-profético, é fruto de uma tradição greco-romana clerical-templocêntrica que se cristalizou na Casa de Deus ao longo de milênios. A Igreja hoje opera nas bases da organização (institucionalismo romano) e da teologia contemplativa que exalta o poder do conhecimento intelectual (escolasticismo grego), em detrimento da Palavra Viva revelada. O homem está satisfeito com seu modelo greco-romano de Igreja, visto que apresenta uma necessidade inerente de controlar as coisas para se sentir seguro. Apóstolos e profetas nos dias atuais apontam para a revelação bíblica de uma Igreja simples, que opera de forma descomplicada , espontânea, orgânica e acima de tudo descentralizada.

A Igreja sempre teve a Palavra Escrita em suas mãos. Mas anos e anos de tradição religiosa encobriram muitos princípios nela revelados. Necessitamos de apóstolos e profetas nos dias atuais que possam levar a Igreja de volta à simplicidade e ao dinamismo descritos na Palavra Escrita, mas que por falta de revelação, estão congelados na forma da Letra.

É bom ressaltar o óbio: os primeiros apóstolos possuem a primazia. Mas eles são singulares, não porque foram os únicos, mas por que foram os primeiros e portanto estabelecem a referência. São nossos pais espirituais porque, como prudentes construtores, nos apresentaram a planta da Casa de Deus (e ninguém jamais deverá edificar fora das medidas por eles apresentadas). O ministério apostólico nos dias vindouros não fará novas adições à Casa, antes edificará segundo as medidas que foram apresentadas no passado (e que foram encobertas pela tradição religiosa). Não haverá “nova revelação” a ser acrescentada e sim a revelação das coisas que já nos foram dadas nas Escrituras e que outrora estiveram encobertas. Assim foi com o primeiro Apóstolo, assim foi com os demais e assim será com os vindouros. Da Letra para a Realidade. Da Palavra Escrita à Palavra Viva.

Fonte: © Pão & Vinho

No amor de Jesus,

Pedro Quintanilha ><>

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