Os 8 Estilos de nossa Sociedade

1. O estilo deste mundo é o do pensamento débil:

Gianni Vattimo define a pós modernidade como uma espécie de Babel informativa, onde a comunicação  e os meios adquirem um caráter central. A pós modernidade marca a superação da modernidade com seus modelos fechados das grandes verdades, de fundamentos consistentes. A pós modernidade abre o caminho, segundo Vattimo, para a tolerância, para a diversidade. É a passagem do pensamento forte, metafísico, das cosmovisões filosóficas bem definidas, das crenças verdadeiras, para o pensamento débil.[1]  A pós modernidade é um estilo de pensamento que desconfia das noções clássicas de verdade, da razão, identidade e objetividade, para a idéia de progresso universal. Contra essas normas iluministas, considera o mundo como contingente, não explicado, diverso, instável, indeterminado, um conjunto de cultura desunidas ou de interpretações. Tudo isso gera um grau de ceticismo sobre a objetividade da verdade, a história, as normas, e a coerência das identidades.   


[1] Gianni Vattimo, El pensamiento débil, Ediciones Cátedra, 1995 Outros livros do autor traduzidos para espanhol são: Más allá de la interpretación, Paidós, 1995; Creer que se cree, Paidós, 1996; Después de la cristiandad, Paidós, 2003; Nihilismo y emancipación, Paidós, 2004; La sociedad transparente, Paidós Ibérica, 1998.

2. O estilo deste mundo é o da globalização.

O mundo globalizado instalou a tendência de nosso mundo a homologação, apesar dos movimentos nacionalistas, tribais e folclóricos. O que se conhece como o McWorld[1]. Vivemos no mundo das franquias, com a intencionalidade forte de que todos comamos o mesmo[2], vistamos igual[3], brinquemos igual[4], vivamos em cidades genéricas[5], tenhamos sistemas políticos e financeiros similares, debaixo de um mesmo componente cultural: o ocidental e especialmente o norte americano. O particular e diverso se “somam” ao pacote cultural homogêneo, com o propósito de introduzi-lo melhor. O ressurgimento do islamismo deu a impressão de se freava a ocidentalização, mas nada mudou profundamente[6]. Pierre Bourdieu dizia que a globalização não é um efeito mecânico das leis da técnica ou da economia, mas uma criação política. Uma progressiva criação do capitalismo com o propósito de estabelecer as melhores condições para seu funcionamento e dominação. Uma dominação suave e cativante que oferece uma mesma cultura propensa ao desenvolvimento do negócio. A globalização tem cor norte americana. O domínio norte americano começou com um fascínio por suas industrias. Junto com isso, sobreveio a influência social e moral: divórcios, competição feroz, direitos civis, o feminismo, o super individualismo, o stress, a ecologia, o neoliberalismo, o voluntariado, o gay, o shopping. Alcançou o status de primeira potência econômica nos anos vintes do século passado, alcançou um glamour humano na década dos trintas, sua apoteose nos cinqüentas, arrasou o mundo financeiro durante os oitentas e se fez império mundial depois da queda do muro de Berlim, em 1989. Nunca antes na história da humanidade um só pais reuniu tanto poder.[7]  A hegemonia norte americana depois da queda do muro de Berlim é indiscutível.[8] A arrogância militar e financeira tem deteriorado significativamente a imagem da superpotência. Isto faz com o capitalismo globalizado utilize uma nova estratégia. Não está para avassalar, mas para produzir amigos. Não busca ser temido, mas busca obter os melhores resultados por ser “encantador”. Uma presença sutil, suave.[9]


[1] Com a queda do muro de Berlim e o triunfo do capitalismo em nível universal, se popularizou a expressão McWorld para caracterizar o processo de globalização com sua correspondente colonização cultural.
[2] McDonald’s tem 30.000 estabelecimentos em 120 países com una clientela diária de 45 milhões de pessoas. A própria empresa denomina o mundo “McWorld”. É tão grande a penetração que por exemplo, a grande maioria das crianças japonesas crêem que os Big Mac são um invento japonês. A revista The Economist, estabeleceu o índice McDonald’s para conhecer si o tipo de cambio das diferentes moedas se encontra apropriadamente estabelecido.
[3] Tom Ford, diretor criativo de Gucci, declarava: “Eu não digo que goste da globalização o que não goste da globalização, mas creio que a geração depois da minha não conhece outra coisa. Eles se encontram expostos às mesmas coisas ao mesmo tempo e isto cria uma cultura na qual, ao redor de todo o mundo, a gente deseja as mesmas coisas e vive ao mesmo tempo” (The New York Times Magazine, 2-12-2001).
[4] Cada ano Mattel fabrica 150 modelos diferentes da boneca Barbie para abastecer aos clientes de todo o planeta, e tem adotado características latinas, africanas, asiáticas, mas sem que “sua alma” deixe de ser branca, ruiva e de olhos azuis, porque os próprios países compradores tem pedido que o produto seja autenticamente americano, a jovem que, a partir do ocidente chega “abrindo novas ilusões femininas”.
[5] São cidades iguais em seus aeroportos, seus centros comerciais, seus escritórios, seus hospitais. Pudong, um distrito de Shangai, com edifícios com referencia nos USA, segundo o primeiro ministro Zhu Rongji, está orientado a transformar-se em um “Manhattan oriental”. A demolição de velhos distritos das distintas cidades do mundo, para dar lugar a arranha-céus e autopistas, é um esvaziamento da memória, cujo propósito é que todos vivamos no “lugar comum, lugares de nenhuma parte e de todas partes.
[6] A metade dos adolescentes dos países árabes declara seu desejo de emigrar a Ocidente. Hoje há mais de 1.000 milhões de seres humanos matriculados para aprender inglês, enquanto que The Economist revela que nos USA somente 9 estudantes universitários se graduaram em árabe. Ao redor de 5000 príncipes sauditas tem investidos 600 bilhões de dólares nos USA. A cadeia Al Jazira reconhece “uma certa mentalidade ocidental como base de nossa política editorial”.
[7] No século XVI o comando imperial estava nas mãos da Espanha e Portugal; nos séculos XVII XVIII passou às mãos de França e Inglaterra. No século XIX se impunham as esquadras inglesa e alemã. Depois da segunda, a bipolaridade foi entre Estados Unidos e União soviética. Depois da queda do muro, um só governo decide sobre a marcha do mundo.
[8] O dólar estadunidense é usado em 83% das transações mundiais, e as empresas norte americanas controlam mais da metade das riquezas do planeta. No âmbito militar, o orçamento de 2004 apontou um gasto dos USA na sua defesa equivalente ao resto dos 191 países do globo. Mas o grande potencial não está nas suas armas , mas si nas vendas. Com 5% da população, sua produção equivale a 43% da economia do mundo.
[9]O crescimento de Starbucks, a empresa mais dinâmica dos EUA nos últimos dez anos, de máximo crescimento na Bolsa com 6000 estabelecimentos em 40 países (entre eles Líbano, Kwait, Omãn, Arábia Saudita) é uma mostra da nova penetração sutil. Enquanto McDonald’s oferecia uma experiência alimentícia, Starbucks oferece uma experiência chic, que penetra pela aparência internacional, intelectual, de estilo suave  européia, amistosa, artística. Os cafés são comparativamente caríssimos, porque são mais que um produto, sino una forma de ser.

3. O estilo deste mundo é o do novo capitalismo:

O capitalismo passou por três fases. A primeira é o capitalismo de produção, que foi desde os fins do século XVIII até a Segunda Guerra Mundial. Nessa etapa o principal eram as mercadorias. A segunda foi a do capitalismo de consumo, desde a Segunda Guerra até a queda do Muro de Berlim. A ênfase foi que os artigos estavam envolvidos pela mensagem da publicidade. E a terceira etapa, a atual, que Verdú chama de capitalismo de ficção, surgido no começo dos anos noventas, do século XX. E a ênfase é a importância dramática das pessoas. Os dois primeiros capitalismos se ocupavam primordialmente com os bens e o bem estar material, mas o atual capitalismo de ficção se encarrega das sensações, do bem estar emocional. Os dois primeiros abasteciam realidade de artigos e serviços, enquanto o capitalismo de ficção se  propõe produzir uma nova realidade, isto é, uma segunda realidade, ou realidade de ficção, com a aparência de ser uma realidade melhorada.  Desta maneira o capitalismo deixa de ser meramente uma organização econômica e se converte em civilização.

4. O estilo deste mundo é estilo do show:

A guerra santa, a responsabilidade moral das empresas, o comércio justo, o marketing com causa, a  “transparência” da política, a estética dos enxertos, a orgia futebolística, os reality shows, a vídeo vigilância universal, a cultura do Shopping, a cidade como parque temático, a democratização, a clonagem, são fenômenos do capitalismo de ficção, onde a realidade se convalida pela realidade do espetáculo. Segundo Baudrillard, o mundo contemporâneo se caracteriza por um processo de desmaterialização da realidade: o olhar do homem já não se dirige para a natureza, mas para as telas da televisão; a comunicação tem se convertido num fim em si mesma em um valor absoluto. Tudo é um espetáculo, e para isso é preciso converter o cidadão em um espectador, e vender as entradas a todo um planeta homogeneizado. “Os espaços onde compramos, onde viajamos, onde vivemos, vão num caminho de conversão num teatro onde somos atores e espectadores, clientes e artistas”.[1]  Ou como disse o famoso consultor internacional Tom Peters: “Todo o mundo já está no negócio do espetáculo”.[2] As técnicas do espetáculo estão incorporadas a religião, a educação ou a guerra e nenhuma atividade fica fora do show business, por que os cidadãos aspiram a não entediar-se nunca, escapando ao peso e gravidade da realidade. Erich Fromm sustentava a quase meio século, que o estado estava interessado em criar indivíduos deprimidos porque governar cidadãos depressivos seria sempre mais fácil aos efeitos da manipulação, e por que o individuo nesse estado não tem forças para protestar e rebelar-se. Mas hoje a estratégia é outra. O estilo atual do mundo tem comprovado que o individuo distraído, entretido, é o que menos protesta e deixa de rebelar-se. O titulo do livro de Neil Postman, “Amuzing Ourselves” (Divertir-nos até morrer) revela o objetivo deste tempo[3].  Na metade do século XX a industria da defesa foi chave no desenvolvimento norte americano. Mas hoje o primeiro lugar é ocupado, soberbamente, pelo setor do entretenimento[4].  Na Espanha se construiu nos últimos anos mais de 60 parques de ócio (lazer). Países em crise como Argentina em 2002, apesar da adversidade tem uma demanda crescente de entretenimento[5]. Tudo tem que ser divertido. A luta pelos pobres não se faz mais com atos revolucionários nem com protestos das massas, mas com recitais de rock. A única coisa que tem relevância é que seja divertido. Na Grã Bretanha os gastos em lazer e diversão têm superado os gastos com comida e bebida. “Nós vendemos felicidade”, é o slogan da Disney, “porque felicidade é o melhor produto do mundo”. Charles Baudelaire chamava a arte “os domingos da vida”, os momentos em que a experiência estética converte o tempo comum em festa. Mas hoje, na sociedade do espetáculo, que todos os dias da semana tente divertir-nos até morrer, sempre pode ser domingo.


[1] Jeremy Rifkin, A era do acesso, (Barcelona, Paidós, 2000).
[2] Tom Peters, Liberation Management, (Nueva York, Knopf, 1992).
[3] Neil Postman, Amusing  Ourselves to Death (Nueva York, Viking Penguin Books, 1986).
[4] Neal Gabler em seu livro Life: The Movie (Nueva York, Vintage Books, 1998) sustenta que a revolução do entretenimento representa a mais poderosa força social e econômica de nosso tempo.
[5] Já no fim do século passado se anunciava que o entretenimento trasladado aos locais comerciais seria o mais significativo fenômeno do novo século. Hoje se fala de entertailing, contração entre etertainment (entretenimento) e retailing (venta no varejo).
5. O estilo deste mundo é infantil:
 
Uma das agencias de publicidade maiores do mundo[1], criou um termo: AABKA, para qualificar aos novos adultos progressivamente infantilizados: “Adults Are Becoming Kids Again” (adultos voltando à infância de novo). Alguns chamam essa tendência de Vice is Nice (o vício é lindo), se referindo à inclinação infantil de procurar satisfações continuas e urgentes. Os adultos jogam cada vez mais, não somente nos esportes, mas com brinquedos. Os videogames contrariamente ao que se pensa, não é um passatempo de crianças e adolescentes exclusivamente, mas sobretudo de adultos.[2] O Play Station, é considerada pela Sony como modo de vida para adolescentes e adultos jovens. Não se pode subestimar essa infantilização. Nossa cultura globalizada avança para uma extraordinária complacência com a figura do menino ou com a adoração da mentalidade da criança. Nunca como nos últimos anos se publicou tantos livros sobre a regressão à infância. Os jovens resistem ser adultos. A escassez de compromisso político, a substituição da critica social pela manutenção passiva do status quo, as sérias dificuldades para assumir responsabilidades nos adultos, o abandono e negligência na educação das crianças, os programas de televisão mais vistos com um nível menor ao de um adolescente do nível secundário, o retorno aos heróis dos quadrinhos a vestimenta adulta com gorros (bonés), mochilas, camisetas estampadas em amplo crescimento. Não somente tenta apagar o passar dos anos da aparência física, mas da consciência. A ambigüidade da vida, que faz que os adultos tentem viver disfarçando-se de outros personagens, como faria uma criança. Talvez a apoteose como símbolo do infantilismo seja o lugar absolutamente desmedido que toma o espetáculo desportivo. As cidades não se mobilizam mais por uma greve geral, senão por uma partida de futebol. O futebol permite viver uma para-realidade infantilizada, sem ter sofrer os elementos duros da vida. A versão feminina são os programas de entrevistas (talk show) e os reality shows. Enquanto os homens se trasladam para a paranormalidade das partidas de futebol, as mulheres trocam sua realidade pela realidade das peripécias a que se expõe os personagens da televisão.

[1] Saatchi &Saatchi.
[2] A tal ponto que os fabricantes de automóveis se inspiram em morfologias de videojogos, isto é, a realidade imita a virtualidade. Modelos de Toyota, Suzuki, Chrysler, por exemplo, são cópias de morfologias de videojogos.

6. O estilo deste mundo é o estilo da falsificação:

O conceito de verdade está em crise. No modelo pós moderno a verdade tem sido substituída pela semelhança. Isto faz que vivamos no mundo da copia, da falsificação, da ambigüidade, da duplicidade, da reciclagem. O travesti na sexualidade. O corpo com os implantes e as cirurgias plásticas, a aplicação de células mães para evitar os defeitos do corpo. A clonagem. Mais de um terço do mercado discográfico são os discos piratas, que já não são tão piratas porque suas empresas pertencem à corporação do selo original.[1]

A China não só tem copiado a roupa e os produtos ocidentais, como tem copiado a própria cultura capitalista. Hoje se falsifica em todo o mundo até medicamentos.[2] Na Índia e em outros países se falsificam os cosméticos, isto é, se falsifica a aparência da aparência. A cosmética ocidental é mimetizada em uma cosmética da cosmética. Na Argentina há um mercado do “trucho” (falso), chamado  “A Salada” do qual participam milhares e milhares de pessoas de todo o mundo semanalmente para comprar todo tipo de produtos copiados. Este não é um fenômeno exclusivo dos países em desenvolvimento, mas o mesmo acontece com os chineses da 5a Avenida, em New York ou em Piccadilly Circus, em Londres. Já não se falsificam somente o produto, mas também aquilo que poderia ser a garantia de originalidade: os códigos de barra, as embalagens, os logotipos, os certificados de garantia, os envoltórios. Com o sistema digital a reprodução de obras de arte faz com que não se consiga distinguir entre o original e a cópia. Nessa mesma linha a ânsia pelo retrô é uma forma de copiar. O revival como cópia do passado.[3]  No início do século XX havia um entusiasmo por abraçar o futuro, havia uma visão otimista e projetiva, mas o início do século XXI coincidiu com o terror e ninguém quer ir mais longe, e todos temem o futuro. É como se a história houvesse parado e se começasse a reviver os acontecimentos do passado, como o nacionalismo, o racismo, as lutas étnico-religiosas, a ameaça nuclear, os populismos latino americanos, os discursos sobre os desaparecidos nos governos pós ditatoriais, os protestos anti globalização com as imagens do Che e a música de John Lennon. Muito do que vivemos tende a ser um déjà vu,  uma reedição do já vivido, já que não há esperança de um horizonte superador. O presente se faz presente mediante uma cópia do passado. A falta de compromisso com a circunstância presente é tão débil que a única âncora é o passado.[4]


[1] O selo discográfico EMI depois de lutar por anos contra a marca pirata Diva, hoje Marcal Records, optou por associar-se a ela e introduziu em seu catálogo de produtos “originais” os produtos “copiados”.
[2] Está  acontecendo gestações de crianças indesejadas com pílulas anticonceptivas falsas.
[3] O “revival” se dá na moda, nos automóveis, no reciclado no estilo dos edifícios, no auge da novela histórica, no gosto pelo clássico, nos tomos de obras completas, no renascimento de tradições e folclores, na re-decoração dos hotéis de maior categoria ao estilo dos começos do século XX, a proliferação dos museus, entre outras manifestações.
[4] Sempre existiu uma certa nostalgia pelo passado, mas a visão progressista considerava a história como processo e força criadora, hoje somente se trata de uma rememoração retórica que toma do passado para satisfazer a demanda da clientela do presente, porém sem projeto futuro. A história não é usada como instrumento de subversão, mas de preservação. A história forma parte do mundo do espetáculo, não busca inquietar, mas amenizar. A historia fica purgada de tragédia e o futuro eximido de projeto.

7.  O estilo deste mundo é o estilo do hiperindividualismo:

Luc Ferry chama o nosso tempo de a época do “ultraindividualismo”, Pascal Bruckner o tem batizado como “superindividualismo” e os sociólogos norte americanos, como Lash, o denominam “narcisista”. Lipovetsky qualifica este período de “segunda revolução individualista” ou passagem do individualismo limitado que inaugurou o século XVIII, para o individualismo total. Na atualidade, segundo Touraine, não se trata de buscar o sentido no mundo, mas o sentido de “minha” vida. O sistema o modelo da personalização dos artigos (customizados) para neutralizar o mal estar que padeciam os consumidores ao ser tratados em série, dentro do tosco capitalismo anterior. O capitalismo de consumo ofereceu grandes quantidades de objetos para aumentar a sensação de bem estar, mas agora, o capitalismo de ficção procura aumentar a impressão de  “ser alguém”. O sistema não se ocupa diretamente de nos fazer gastar muito, mas de nos fazer crer que no quanto valemos. [1] A marca não se impõe, mas coopera em fazer o “eu”; as empresas não pressionam para que gastemos para seu proveito, mas para que invistamos, sobre tudo, em nós mesmos. Na política já não se trata de construir uma ideologia determinada e forte, mas de acomodar-se às solicitações do eleitorado. Na nova psicoterapia, altamente pragmática, se renuncia em prescrever uma mudança nas condutas do cliente, se tal correção o incomodar: o melhor é recorrer aos medicamentos. Custa, para as empresas, quatro ou cinco vezes mais captar um novo cliente do que conservar ao que tem, assim que, sobre tudo deve-se cuidar de não espantá-lo. O bombardeio de conselhos (livros de auto ajuda, anúncios publicitários, recomendações medicas, opiniões midiáticas) tudo para desenhar interminavelmente um outro  eu melhor. Paradoxalmente a centralidade no eu, é acompanhada da falta de uma identidade clara. Hoje há uma aglomeração de “eus” substitutos e contraditórios. No capitalismo de ficção, não se fala de classes sociais, mas de classes de vida. A luta de classe foi sucedida pela luta para ser eu, e a luta pela revolução tem continuado no afã para que ser alguém. O escritor Walter Truett Anderson dá quatro termos que os pós modernistas usam para falar do eu ou das múltiplas identidades. O primeiro é multifrenia. Isso se refere às muitas vozes diferentes em nossa cultura que nos dizem quem somos e o que somos. O pós modernismo diz não há uma personalidade íntegra, mas multiplicidade de personalidades. Em definitivo, não podemos saber muito bem quem somos. O segundo termo é  proteano (vem do deus Proteo, um deus marinho conhecido por sua capacidade de metamorfose). O eu proteano é capaz de mudar constantemente para adequar-se às circunstancias atuais. “Pode incluir mudar de opiniões políticas e de comportamento sexual, mudar de idéias e da forma de expressá-las, mudar formas de organizar a própria vida”. Em terceiro lugar, Anderson fala do eu descentralizado e significa que não existe nenhum eu. O eu está sendo redefinido constantemente, e sofrendo mudanças. O quarto termo é o-eu-em-relação. Significa que não como ilhas enquanto a nós, mas em relação a pessoas e a certos contextos culturais. Para entender a nós mesmos, necessitamos entender os contextos de nossas vidas. Se juntarmos esses quatro termos, temos a imagem de uma pessoa que não tem nenhum centro, mas que está sendo jogada em muitas direções diferentes, e está constantemente mudando e sendo definida externamente pelas diferentes relações que tem com os outros. Antes de acreditava que a nossa meta devia ser alcançar a integridade. O pós modernismo diz: impossível. O desenvolvimento da assistência psiquiátrica, a proliferação de antidepressivos, o enorme consumo de sedativos e pílulas da felicidade é correspondente com essa patologia que o hiperindividualismo tem espalhado por nossa sociedade. O indivíduo atemorizado por desaparecer no “coletivo” e desesperado pela falta de comunidade. Lutando para evitar ser homogêneo e sofrendo, paralelamente, ao peso do culto ao eu. Nesse hiperindividualismo, o cliente é que determina tudo no mundo de hoje. [2]

Os executivos das produtoras de televisão, das editoras, das industria cinematográfica, assistem a cursos sobre estrutura narrativa, com o propósito único de satisfazer o gosto do público, e então, a partir do que aprendem, fazem as correções às obras que os roteiristas, escritores e compositores lhes entregam. Hoje as produções, não são de um autor, mas de equipes de trabalho que se propõe criar um produto que satisfaça ao gosto do povo. Os artistas de antes tentavam explorar novos mundos e provocavam estupefação ao comunicar ao público suas descobertas, porque iam além daquilo que era compreendido pela gente, viam o que os outros não viam, eram profetas, e por fim alardeavam não serem compreendidos. Mas os artistas de hoje, não pretendem trazer revelação do novo, pois sua tarefa é reelaborar o conhecido e aceito, e o grande esforço é comunicar o que fez.

Ser hoje um incompreendido não aumenta os ganhos dos autores, ao contrario isso termina com eles. Os artistas concentram seus sonhos em difundir-se massivamente, a ponto que quando faz algo que “pega”, se verá obrigado a repetir-se sem cessar. O artista procura ser aplaudido e não ser incompreendido, pretende ser um sucesso na mídia, incorporar-se a esse mundo de mídia. Os artistas não querem ser profetas nem passar para a história, o que querem é entrar no mundo.


[1] Publicidade de LÓréal: “Porque eu tenho valor”.
[2] No âmbito da arte, o grande artista era Deus. Depois  o artista não era Deus, mas reconhecia-se que o artista era tocado pela mão de Deus. Mas isso já passou. Hoje os grandes artistas se confundem com os homens de negócio, passaram de semideuses a profissionais, do celestial ao produtivo. Quanto mais dinheiro há em jogo mais participam os empresários e menos as genialidades dos músicos, escritores, roteiristas.
8.  O estilo deste mundo substitui a ética pela cosm-ética:

O capitalismo de ficção quer  mostrar uma imagem bondosa. Hoje se entregam etiquetas de boa conduta para as empresas que colaboram com o ambiente, não (super)exploram aos empregados e não manipulam a contabilidade. As universidades dão aulas de ética nos negócios. Na prática a maior parte das empresas não se comporta muito diferente das de trinta anos atrás, mas se submetem a um diagnóstico, para aparecer como limpas. [1] O mais importante não é cumprir as obrigações com as autoridades, constantemente subornadas, nem diante dos sindicatos, mas diante da opinião pública, com uma imagem de militância moral por meio do marketing com causa. No plano individual a relatividade ética tem se convertido em anomia (ausência de normas). Diante da sexualidade a pós modernidade tem subido os decibéis a mui altas cotas de promoção e consumo, doses fortes de erotismo e de vulgarização genital. Há toda uma apologia do hedonismo focalizado na sexualidade, tudo muito bem estudado, programado e oferecido com persistente vigor. O sexo tem se convertido em consumo de massas mediante a web-pornografia[2], a telefonia erótica, os classificados de encontros, os vídeos, as telenovelas; o consumo de sexo, não somente tem se intensificado, como tem ganho em precocidade. Podemos dizer que a pós modernidade vive a “toda sexualidade”, a toda “ressurreição da carne”. Com um efeito paradoxal: a exposição da intimidade na totalidade anula a intimidade e faz desaparecer o objeto. Porque uma vez que se explora exaustivamente todo o campo, uma vez que a pupila tenha chegado ao cúmulo do mais explícito, a visão se vela. A total visão do visível anula a excitação e o resultado é uma fartura onde agoniza o desejo pelo objeto. Paralelamente há uma crise da heterossexualidade. A homossexualidade não só é aceita, mas está perdendo significação, precisamente pelo êxito alcançado em permear a cultura, e então já não é mais chamativo. Dois sexos são poucos sexos, inclusive, três é uma quantidade exígua. O atual, de acordo com as últimas tendências, é ser queer (extravagante). Para esses não existe uma identidade sexual determinada, mas mil gradações do sexo. [3]

[1] Nike, Adidas, Reebock, que exploram crianças do Terceiro Mundo, tiveram que melhorar as condições de trabalho para limpar sua imagem. Com uma campanha em prol dos famintos, American Express trata de limpar sua imagem por suas excessivas comissões. Assim as produtoras de tabaco e outras empresas.
[2] Nos Estados Unidos, os clientes típicos são homens jovens e de meia idade, com um nível salarial entre médio e alto, porque segundo a Sociedade de Psicologia Americana, as duas atividades a que dedicam mais tempo os jovens traders e brokers (atividades das Bolsas) em volta de Wall Street são a caminhar e a masturbação.
[3] Originalmente la palabra queer se aplicaba na acpção de “maricas”, mas hoje os queer são outra coisa e muito mais. Os queer vêem aos gay como aburguesados, tão encaixados na normalidade e tão “classificados” para o sistema como os travestis, os transexuais, as drag-queens, e os drag-kings, os bisexuales ou as lésbicas que compõem um “catálogo fixo.” O queer seria, pelo contrário, o incatalogável, tanto no sexo como em outros campos da cultura. Assim há hombres feministas, lésbicas que se deitam com homens, e toda classe de subversão do código dualista.

Extraído do Artigo: Reino Igreja e Sociedade de Carlos Miranda.

No amor de Jesus,

Pedro Quintanilha ><>

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